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A distribuição da gordura corporal pode ser mais determinante para a saúde do coração do que o peso indicado pela balança, especialmente entre homens. Essa é a principal conclusão de um estudo apresentado no final de 2025, durante o congresso da Sociedade Radiológica da América do Norte (RSNA), nos Estados Unidos. O trabalho analisou o impacto do acúmulo de gordura abdominal, popularmente conhecida aqui no Brasil como “barriga de chope”, sobre a estrutura cardíaca de adultos sem diagnóstico prévio de doença cardiovascular.
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A pesquisa avaliou mais de 2.200 homens e mulheres com idades entre 46 e 78 anos, que foram submetidos a exames detalhados de ressonância magnética do coração. Os pesquisadores compararam duas medidas usadas na prática clínica: o índice de massa corporal (IMC), que reflete o peso total, e a relação cintura-quadril, que indica a concentração de gordura na região abdominal. Eles observaram que esse acúmulo esteve associado a alterações cardíacas consideradas mais preocupantes do que aquelas relacionadas apenas ao excesso de peso global.
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A obesidade abdominal merece atenção especial porque está diretamente ligada ao acúmulo de gordura visceral, aquela que se deposita profundamente no abdômen, ao redor de órgãos como o fígado. “Diferentemente da gordura subcutânea, que fica logo abaixo da pele e conseguimos apertar com os dedos, a gordura visceral é metabolicamente ativa e libera substâncias conhecidas como adipocinas ou citocinas inflamatórias na circulação”, explica a cardiologista Juliana Soares, do Einstein Hospital Israelita. Esse processo cria um estado de inflamação crônica de baixo grau e favorece manifestações como resistência à insulina, alterações no colesterol e aumento da pressão arterial, fatores que sobrecarregam o coração ao longo do tempo.
No estudo, os resultados dos exames de imagem mostraram um remodelamento do músculo cardíaco à medida que a relação cintura-quadril aumentava. Significa que havia um espessamento do músculo cardíaco, especialmente no ventrículo esquerdo, acompanhado de uma redução do espaço interno das cavidades. Vale lembrar que o coração funciona como uma bexiga elástica, que precisa de espaço para se encher de sangue e de flexibilidade para esvaziar a cada batida.
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“Com a obesidade e o estado inflamatório crônico, o coração passa a trabalhar contra uma pressão maior. Como qualquer músculo submetido a esforço contínuo, suas paredes se tornam mais espessas ao longo do tempo. O problema é que esse espessamento reduz o espaço interno das cavidades e deixa o músculo mais rígido, fazendo com que o coração acomode menos sangue a cada batimento”, detalha a cardiologista.
No início, o órgão tenta compensar batendo mais rápido. Mas, com o passar do tempo, essa sobrecarga compromete sua capacidade de relaxamento. O resultado pode ser um tipo de insuficiência cardíaca em que o coração ainda consegue contrair, mas não se enche adequadamente, prejudicando a circulação de oxigênio e nutrientes pelo corpo. Com isso, perde eficiência de forma gradual, mesmo antes do aparecimento de sintomas.
Diferenças entre homens e mulheres
Outro achado é a diferença do risco cardíaco entre homens e mulheres. Embora ambos apresentem alterações associadas à obesidade abdominal, os efeitos são mais intensos nos participantes do sexo masculino. Uma das explicações está no padrão de distribuição de gordura, já que homens tendem a acumular gordura do tipo androide, concentrada no abdômen, o que favorece maior proporção de gordura visceral. Já as mulheres, especialmente antes da menopausa, costumam apresentar um padrão ginoide, com maior depósito de gordura subcutânea em quadris e coxas, metabolicamente menos agressiva.
Além disso, fatores hormonais parecem exercer papel importante. O estrogênio tem efeito cardioprotetor e influencia o metabolismo da gordura, direcionando seu armazenamento para regiões menos nocivas. Com a queda desse hormônio após a menopausa, essa proteção diminui, aproximando o risco feminino ao masculino. Diferenças na resposta inflamatória também contribuem: homens tendem a apresentar níveis mais elevados de inflamação sistêmica associada à gordura visceral, o que pode acelerar as alterações estruturais do coração.
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Na prática, os resultados reforçam a necessidade de ampliar como o risco cardiovascular é avaliado. Medidas simples, como a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril, podem ser obtidas com uma fita métrica e fornecem informações relevantes sobre o risco. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), valores de circunferência da cintura acima de 90 cm para homens e 85 cm para mulheres indicam maior risco cardiovascular.
Também é essencial que o processo de emagrecimento aconteça a partir de hábitos saudáveis, que sejam mantidos a longo prazo. “Atividade física regular e alimentação equilibrada são fundamentais, especialmente porque a gordura visceral responde melhor ao exercício e pode ser reduzida mesmo sem grande perda de peso”, avisa a cardiologista do Einstein.
Fonte: Agência Einstein
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